quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Nuvem do teu branco és


 Contraditório seria ao invés, o invertido. Pois é imperceptível esta minha incapacidade de expressividade perante sentidos apaziguadores, extraordinários momentos e sabores sensacionais . Será que o drama e a tragédia sempre se traduzem mais fáceis do que a estabilidade e o equilíbrio? Não consigo deixar de ser redundante quando quero detalhar o que sinto. Prolifero partes de mim dissipando, como se tudo o que é bom fosse a metáfora de uma nuvem branquinha , confortável e de um toque puramente suave. Porém, o sentido de ser nuvem é um todo que não se palma por partes ou moldes, e assim estou eu. Sei nitidamente que existes, bonita a vaguear nesse imenso azul consequentemente infinito. Contudo, és volumosa e cheia de surpresas, camuflas o sol, libertas a chuva...ora miudinha ora granizada, impulsas esses flocos de neve de uma temperatura gélida,  confortas o mar quando nasces e hibernas na sombra da noite. Ainda assim, ninguém te consegue apanhar, agarrar, fazer  de ti um ser concreto em polpa e circunstância, não te deixas definir em consistência...só em evidência. Existes porque sentes e sabes o que tens de fazer, tens a consciência de quem és, não te deixando ser. E és persistente nuvem, mesmo com o vento a soprar, uma montanha por atravessar ou o mar a balancear, tu moldas-te ou avanças nunca desistindo do teu branco cor de cal. 
           Seres tu em mim nuvem, é assim que é. Sinto, sei porque sinto e porque sou para quem sou. Esmero-me por  surpreender o meu sol, liberto a essência de mim por ti, impulso as vontades mesmo quando o ar é gélido, conforto-te quando ondas altas e baixas se avistam, e hiberno no teu leito durante a noite. Porém, é impossível concretizar em pedacinhos, em quadrados perfeitos, palavras, gestos ou ternuras. Expressam-se por si, assim como tu nuvem quando atravessas a montanha te mantens fiel a ti mesma, existes. Por isso, aqui tu me tens, a consentir o olhar do que não vês mas formiga em ti e arrepia.  

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